
Se formos analisar alguns filmes da paradoxal filmografia de Steven Soderbergh, sempre encontraremos algo em comum entre seus filmes: a profundidade com a qual ele lida com o desenvolvimento de seus personagens. Na maioria das vezes – e isso não inclui filmes fracos como
Sexo, Mentiras e Videotape e ruins como
Full Frontal – Steven delineia cada personagem como se fossem únicos no enredo e, óbvio, isto é de se louvar. Outra marca registrada deste diretor é a quase que constante estilização visual que utiliza não só no modo de filmar, mas sim na disposição e inserção de cores nas fitas. Esta combinação deu certo no genial
Traffic e no interessante
Bubble. Mas quem se aventurar no seu novo filme, Confissões de Uma Garota de Programa, irá perceber que Soderbergh, de maneira triste e quase desastrosa, tropeça nas suas próprias facetas.
O filme, escrito por Brian Koppelman e David Levien, tem míseros 78 minutos e mostra cinco dias na vida de Chelsea (a atriz pornô Sasha Grey), uma garota de programa de luxo, que atende clientes da alta sociedade de Manhattan. Mas logo percebemos que o título original em inglês,
The Girlfriend Experience, é muito mais válido, já que Sasha é uma espécie de namorada de aluguel, pois não só oferece sexo aos seus clientes, mas sim companheirismo e conversa. Com isso, ela sente que o mundo sempre dá voltas ao seu favor e tudo é ratificado pela presença de seu namorado que, de forma bastante intrínseca, não tem problemas com a vida profissional da moça. Mas é claro que este é um universo dito bittersweet por muitos, uma vez que ao mesmo tempo em que é ótimo por ser bem remunerado, é vulgar e, por vezes, perigoso. O que é válido perceber é que quando você está nesse tipo de nicho, conhece muitas pessoas e, por esse motivo, nunca sabe o que encontrará pela frente.
Num primeiro momento, a premissa pode trazer a sensação de ser um filme extremamente bem feito. Mas pensem que eu sequer citei os demais personagens do filme e isso é fácil de explicar: tudo é manipulado da forma mais fria e distante do espectador possível. Começamos sem conhecer Chelsea e terminamos exatamente da mesma maneira. Sei que às vezes é interessante sermos submetidos ao mistério acerca do personagem, mas como se trata de uma película quase que biográfica, este recurso “textual” é completamente inválido e utópico. Também se espera algo bastante suave e original durante os programas da moça, já que é uma espécie de consulta psicológica íntima; contudo, elas são nota zero em termos de emoção.
Steven, desta forma, falha o tempo todo na transposição do roteiro. E esta falha tange tudo, até a disposição de cenas. O único aspecto positivo é a sempre genial estilização visual que a câmera deste diretor propõe: juntamente com um belo trabalho fotográfico, a composição das cores e ângulos é quase caótica – claro, num ótimo sentido. Mas de que adianta algo visualmente deslumbrante se o essencial – o enredo – é parcialmente inexistente? E outra: o elenco é inerte. Sasha Grey não incomoda, mas é um pólipo em cena, o tempo todo com a mesma expressão facial. Exceto por uma cena, talvez a mais interessante do filme, em que mostra certa profundidade emocional. A idéia de querer mostrar a vida de uma garota de programa de luxo é batida, mas dependendo do modo como é exposta, poderia render algo válido. Os roteiristas erram, Steven erra (mesmo com belo trabalho técnico) e o elenco nem a capacidade de errar teve.
Nota:
4,5
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